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Ficha técnica

Edição Digital:
Editora: Nova Fronteira
ISBN-13: 9788520926833
Idioma: Português
Número de páginas: 600
Formato: EPUB
Impressão permitida: não
Cópia permitida: não

50 Anos a Mil

Polêmico, zangado, romântico, revolucionário. 50 ANOS A MIL é a autobiografia do Lobão, que conta em um volume fartamente ilustrado a história do menino que queria ser jogador de futebol e acabou se transformando num dos grandes nomes do rock brasileiro. As músicas, os amigos, as confusões com a polícia - o grande lobo não poupa nada nem ninguém.

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Página(s):

Lobo Mau Até a Última Gota 29/02/2012
Sérgio Martins VEJA - 01/12/2010

O roqueiro Lobão tem duas qualidades inquestionáveis. A primeira é o talento musical que o levou a ser considerado um dos principais artistas do rock brasileiro das últimas três décadas. Lobão toca, e bem, bateria e guitarra. E, além do rock, sua discografia já visitou gêneros como o samba e o funk. A segunda qualidade - até aqui conhecida apenas pelos amigos e por jornalistas que o entrevistaram com alguma demora - é a capacidade de contar histórias (em boa parte verdadeiras, mas com distintos graus de exagero e liberdade criativa). João Luiz Woerdenbag, o Lobão, é o protagonista da maioria dessas anedotas. Cresceu em uma família que poderia figurar numa peça de Nelson Rodrigues, foi amigo das figuras mais polêmicas do showbiz nacional (o poeta Júlio Barroso, o cantor Cazuza e o crooner Nelson Gonçalves), comprou brigas barulhentas com colegas (e coma Justiça) e passou por relacionamentos amorosos turbulentos. 50 Anos a Mil relata parte dessa trajetória conturbada. Escritas com a ajuda do jornalista Claudio Tognolli, as memórias do compositor de Me Chama propiciam boas risadas ao leitor. E oferecem também um panorama pessoal do pop brasileiro das últimas décadas. Lobão é daqueles memorialistas que se orgulham até dos erros. "Meus arrependimentos estão circunscritos a uma eventual ressaca moral depois de um vexame num bar qualquer. Estou muito em paz com a vida", disse ele a VEJA. Nascido em 1957, o carioca Lobão é filho de um mecânico especializado no mais luxuoso de todos os carros, o inglês Rolls-Royce. A mãe, professora, sofria de transtorno bipolar. O garoto ganhou sua primeira bateria aos 6anos. Aos 8, começou a aprender violão clássico. O apelido famoso surgiu no secundário, quando insistia em aparecer na escola trajando um macacão surrado, que lembrava a indumentária do Lobo Mau na versão de Walt Disney (o apelido infantil dado pela mãe não prenunciava o astro de carreira escandalosa: Xurupito). A adolescência de Lobão foi atormentada, especialmente depois que seu pai largou a família. Certa feita, cansado das ameaças do pai, Lobão o acertou com o violão. Depois da separação, a mãe - que tentou o suicídio algumas vezes - passou a se ancorar cada vez mais no filho. Revoltado, Lobão, em uma discussão, disse que ela era incompetente até para se matar. Sua mãe então parou de tomar seu remédio para o coração - e desabou morta durante uma aula de inglês. As relações com a turma roqueira dão capítulos menos trágicos, mas barulhentos. O cantor foi muito amigo de Júlio Barroso, poeta e mentor da Gang 90, grupo que despontou no início da década de 80. Os dois chegarama dividir o amor pela mesma mulher, a cantora holandesa Alice Pink Pank - musa inspiradora de Noite e Dia, sucesso gravado por Marina Lima. Cazuza foi outro que abalou o Rio ao lado de Lobão, a ponto de a dupla figurar num guia turístico como atrações do Baixo Leblon, reduto da boemia carioca. "Eu debochava da tietagem de Cazuza com Caetano Veloso e Gilberto Gil. Cheguei a dizer: ‘Rapaz, toma tenência que tu vai morrer e, de castigo, o Caetano ainda escreve o prefácio de tua biografia póstuma’", lembra Lobão. As aventuras com Cazuza rendem momentos indecorosamente divertidos, como o ritual pouco ortodoxo que a dupla encontrou para homenagear Júlio Barroso, morto em 1984: eles cheiraram cocaína na tampa de seu caixão. O cantor cultivou também muitos desafetos, sendo o mais célebre deles Herbert Vianna, do Paralamas do Sucesso, que Lobão sempre acusou de plágio. Abriu polêmica não só com artistas em particular, mas tribos inteiras - como os fãs de heavy metal, que arremessaram dezenas de latas de cerveja recheadas com areia, para machucar, no palco durante o show deLobão no Rock in Rio, em 1991. O maior conflito do artista, porém, foi com alei. Em 1987, ele respondia a um processo por posse de drogas quando o juiz encarregado do caso o acusou de desacato. Lobão foi levado para acadeia de táxi - o camburão da polícia quebrou no meio do caminho. Diz que presenciou a tortura de companheiros de cela e lembra que a comida vinha sempre estragada. Em compensação, teria se tornado popular entre os presos. Organizava campeonatos de "jacaré", misturando água e sabão no chão da cela para ver quem chegava mais longe deslizando de barriga. A autobiografia desvela ainda o lobo apaixonado. O autor conta que certa época gamou em Marina Lima, e que a cantora lhe concedeu uma noite em seu quarto - mas sem sexo. A estonteante Monique Evans foi outra paixão breve e fulminante, cujo fim inspirou uma grande canção, Décadance avec Élégance. Após uma briga (Monique irritava-se com os vícios químicos do parceiro), Lobão fez uma patética tentativa de reconciliação: dos camarotes do Sambódromo, suplicou perdão, aos gritos, para Monique, que desfilava em uma escola de samba. Lobão teve um relacionamento mais longo com Daniele Daumerie, a quem chamava de "prima" (na verdade, amãe dela e a de Lobão eram muitos amigas). Foi outro casamento conturbado (e, no livro, pouco é dito sobre Júlia, a filha do casal). Apaziguado, Lobão está casado há mais de vinte anos com Regina Lopes, sua empresária. A música, é claro, também faz parte de 50 Anos a Mil. O livro retrata atransição do rock progressivo (e chatonildo) que se fazia no país na década de 70 para o pop de linguagem mais brasileira da geração de Lobão (que, aliás, ajudou a fundar a Blitz, uma banda pioneira do rock do período). O livro não diz muito sobre a música atual. Mas é só dar trela para tirar da toca o crítico ácido de sempre: na entrevista a VEJA, Lobão acusou a falta de "virilidade" do pop atual. Um dos problemas estaria na formação dos jovens, submetidos a "chantagem emocional" na escola. "Sempre tem um professorzinho de história para incutir uma mentalidade marxistoide no garoto, que não consegue ser visto como uma pessoa inteligente e sexy se não rezar pelos clichês de esquerda. Você entra na escola ouvindo Led Zeppelin e sai fã de Edu Lobo. Ou de Chico Buarque, o baluarte da esquerda conservadora", diz. Ao lado da música e das boas histórias, Lobão tem um terceiro grande talento: dá cacetadas como ninguém.

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