Literatura Brasileir...
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Autor(es): Jô Soares
Editora: Companhia das Letras
Assunto: Literatura Brasileira
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Ficha técnica
Edição Digital:
Editora: Companhia das Letras
eISBN-13: 9788580861310
ISBN-13: 9788535919752
Origem: BR
Edição: 1ª Edição
Idioma: Português
Número de páginas: 264
Formato: EPUB
Impressão permitida: não
Cópia permitida: não
As esganadas
Em As esganadas, o autor do best-seller O xangô de Baker Street explora mais uma vez tema que lhe é caro: os assassinatos em série. No entanto, tal como Alfred Hitchcock, que desprezava os romances policiais cujo objetivo se resume a descobrir quem é o criminoso (o famoso “whodonit”), Jô Soares revela logo no início não somente quem é o desalmado como sua motivação psicológica (melhor dizer psicanalítica) para matar. O delicioso núcleo narrativo está nas tentativas aparvalhadas da polícia de encontrar um criminoso que, além de muito esperto e de não despertar suspeita nenhuma, possui uma rara característica física que dificulta sobremaneira a utilização dos novos “métodos científicos” da polícia carioca.
Para investigar os crimes, o famigerado chefe de polícia Filinto Müller designa um delegado ranzinza, assessorado por um auxiliar obtuso e medroso, e que contará com a inestimável ajuda de um sofisticado e culto ex-inspetor. Na perseguição ao criminoso, os três investigadores ganham a desejável companhia de uma jove...
Na mídia (1)
Página(s):
Na comédia policial As Esganadas, Jô Soares põe em cena um serial killer de gordas, mistura violência com chanchada e não dá bola para o politicamente correto Jô Soares acaba de cometer mais um crime. Vários, aliás. Em seu quarto romance, As Esganadas (Companhia das Letras; 264 páginas; 36 reais), o humorista, apresentador e escritor novamente se exercita nos gêneros de que mais gosta e que melhor domina: a trama policial e a comédia - tanto a sofisticada quanto a boa e velha chanchada -, costuradas em um cenário de época no qual personagens fictícios e reais se esbarram a todo instante. "Eu me sinto muito à vontade fazendo esse tipo de thriller com humor. Enquanto escrevia, ri muito", afirma o autor. Como em seus livros anteriores, aqui também existe um misterioso assassino à solta - desta vez, um serial killer com fixação por mulheres gordas e gulosas, as tais "esganadas" do título. Ao mesmo tempo, um atrapalhado grupo tenta descobrir a identidade do maníaco, metendo-se em diversos quiproquós pelas ruas do centro do Rio de Janeiro no fim dos anos 30. Mais precisamente, 1938: "O ano em que eu nasci", lembra Jô. Para conduzir melhor o leitor por essa cidade que não existe mais, ele chegou a pesquisar os itinerários dos bondes de então. Nesse colorido painel art déco da velha capital federal há também um sherlock lusitano - amigo íntimo do poeta Fernando Pessoa e do ocultista picareta inglês Aleister Crowley -, uma jornalista moderna da revista O Cruzeiro e até um anão dublê de palhaço de circo e cantor de ópera, por quem se apaixona perdidamente uma diva loira do Terceiro Reich. Ao melhor estilo Hitchcock, só os personagens da trama não conhecem a identidade do assassino das gordas. "Eu penso cinema", justifica Jô. Como os três romances anteriores - O Xangô de Baker Street, seu primeiro e maior sucesso, O Homem que Matou Getúlio Vargas e Assassinatos na Academia Brasileira de Letras -, As Esganadas é sem dúvida um passatempo divertido. Desta vez, porém, o registro noir de comédia policial está muito mais gráfico e sanguinolento. Os assassinatos são descritos com perícia de legista forense, além de apresentarem uma mistura nada agradável de vísceras com doces portugueses. Não é isso exatamente o que se espera do entrevistador brincalhão que encerra as noites com o "beijo do gordo". O próprio Jô concorda: "Neste livro fui muito mais fundo no terror". Mas ele não se preocupa com as possíveis reações negativas dos paladares mais sensíveis, já que diz não ter compromisso nem muito menos paciência com o politicamente correto. Isso fica claro logo no início de As Esganadas, quando a primeira vítima, saindo da famosa Confeitaria Colombo, é descrita em toda sua exuberante corpulência como "gorda, bela, voraz e gulosa". Jô se diverte: "Hoje tem esse negócio de não poder dizer que uma pessoa é gorda. Só pode falar ‘gordinha’. Mas aí você pergunta quanto ela pesa e respondem ‘140 quilos’. É gorda!". Na qualidade de humorista que teve de driblar os censores durante a ditadura militar, Jô acusa resquícios do velho autoritarismo na atual onda de correção política e tutelagem que se tem visto no Brasil. "Essas tentativas de controlar imprensa, televisão, humor são perigosas. São censura, e eu sou contra", diz Jô. "Como anarquista, no melhor sentido da palavra, sou a favor do bombardeamento de toda e qualquer ideia que seja contra a liberdade." Uma das figuras históricas mais presentes em As Esganadas, aliás, é um emblema do autoritarismo e da censura: Filinto Müller, o temido chefe da polícia política de Getúlio Vargas (foi ele quem entregou a militante comunista Olga Benário ao governo de Adolf Hitler). Providencialmente, Jô o põe no centro de um vexame homérico do governo brasileiro com autoridades nazistas, durante uma malfadada récita de ópera no Teatro Municipal. "Filinto Müller era um personagem sinistro que, como todo algoz, ao morrer levou um monte de gente junto com ele", diz Jô, referindo-se ao acidente de avião em Paris no qual Müller morreu, em 1973. "Mas admito que não foi ele quem derrubou o avião", brinca. Com um romance publicado a cada quatro anos, em média, Jô já reúne ideias para uma próxima trama. Mas entre seus hábitos está só começar a escrever depois de roteirizar o argumento e, sobretudo, ter o desfecho da história bem resolvido. Também procura escrever religiosamente todos os dias, nem que seja só para acrescentar uma vírgula. "Tive de interromper As Esganadas por dez dias para terminar uma tradução. Quando voltei, percebi que o livro se sentira abandonado." No momento, além do talk show na TV e do lançamento do livro (já existem negociações para uma edição francesa), Jô acaba de dirigir a peça O Libertino, de Diderot, em cartaz em São Paulo. "Tenho recebido muitos convites para dirigir teatro, mas estou com vontade mesmo é de atuar numa peça", avisa aos interessados. E também pinta nas horas vagas. "Não é que eu seja humorista e neurocirurgião ao mesmo tempo. Tudo o que eu faço são como dedos de uma mesma mão." Além de gordo - como ele mesmo faz questão de dizer com todas as letras -, Jô Soares é modesto.
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