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Ficha técnica

Edição Digital:
Editora: Editora Objetiva
eISBN-13: 9788539001620
Edição: 1ª Edição
Idioma: Português
Número de páginas: 164
Formato: EPUB
Impressão permitida: não
Cópia permitida: não

A casa dos budas ditosos - Luxúria

Depois da “Gula” (Luis Fernando Verissimo), da “Ira” (por José Roberto Torero) e da “Inveja” (por Zuenir Ventura), chega agora a vez de João Ubaldo escrever sobre a luxúria na coleção Plenos Pecados. O livro traz a história de CLB, uma mulher de 68 anos, nascida na Bahia e residente no Rio de Janeiro, que jamais se furtou a viver - com todo o prazer e sem respingos de culpa - as infinitas possibilidades do sexo. Seriam as memórias desta senhora devassa e libertina um relato verídico? Ou tudo não passa de uma brincadeira do autor? Nunca saberemos. Importa é que ninguém conseguirá ficar indiferente à franqueza rara deste relato e a seu humor corrosivo.

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Além dos tabus e dos clichês 11/09/2011
Bravo 06/1999 - Crítica

Em A Casa dos Budas Ditosos, João Ubaldo Ribeiro supera a dificuldade de construir um discurso pornográfico e mostra que voltou à velha forma Isolado no território da baixaria, o discurso pornográfico tem sido sustentado apenas nos espaços da intimidade ou por pessoas que, para impor uma pose de malditas, o usam transgressivamente. Se aceitamos sem maiores problemas as imagens sexuais, a linguagem pornográfica ainda está tomada por tabus. Mostrar o diálogo de corpos é uma coisa natural, mas descrevê-lo sem recorrer a metáforas sublimadoras soa sempre desajeitado e de mau gosto. Vivendo essencialmente no campo da linguagem oral e das imagens, a pornografia, quando escrita, descamba para as subculturas do gosto. É compreensível, portanto, que João Ubaldo Ribeiro abra A Casa dos Budas Ditosos, romance dedicado à luxúria, com um truque narrativo. A autoria do relato não seria dele, mas de uma senhora baiana de 68 anos que descreve experiências sexuais liberadas. Transferindo a autoria do depoimento, que originalmente teria sido gravado, o romancista já revela a sua intenção de não cair nem nos clichês metafóricos nem na linguagem marcada pelo peso da transgressão. Como quem narra é uma mulher de idade que, em tese, não escreve, mas conversa com o gravador, há o estabelecimento de uma maior naturalidade. As besteiras mais cabeludas podem ser pronunciadas sem constrangimentos tanto para o leitor quanto para o autor. Quem “fala” no romance é uma pessoa incógnita, protegida pelas iniciais CLB, estrategicamente distanciada. Para evitar possíveis parentescos biográficos, o sujeito da narrativa é feminino. Esse recurso guarda ainda um outro sentido. Defensora da pansexualidade, a personagem se vê como um homem fêmea, opondo-se às teses feministas da busca do gênero na linguagem. Ao ser enunciado por uma mulher de idade, o discurso pornográfico acaba desarmado. Sem um enredo definido, o relato cresce em espiral, fortalecendo a busca de uma oralidade que não é apenas lingüística, mas também estrutural. Tudo isso faz de A Casa dos Budas Ditosos um livro do prazer. Quando o leitor menos espera, já está excitado com as histórias de sacanagem da adorável velha suja, estabelecendo uma relação de cumplicidade com ela. Mas o leitor só se deixa levar pelo desejo erótico porque, antes de mais nada, a leitura em si o conquista. Não se trata apenas do prazer no texto, mas do prazer pelo texto. A naturalidade da linguagem pornográfica fortalece a tese da narradora: não existe, na arte de amar, nada que seja antinatural. Todas as combinações são válidas no aprimoramento desse ofício que deve combater qualquer tipo de limitação. É para ilustrar esse seu conceito de felicidade por meio do sexo livre, fora das categorias, inclusive das categorias masculino/feminino, que a protagonista resume seu vasto currículo na área. Ela não aceita papéis definidos, e isso fica expresso no próprio romance, que renuncia à rigidez de um enredo. No momento do relato, a narradora está muito doente, à beira da morte. Isso poderia ser interpretado como um castigo por sua vida pregressa. Mas o romance acaba justamente afirmando a luxúria como um dom divino, sem nada de satânico: “Eu não pequei contra a luxúria. Quem peca é aquele que não faz o que foi criado para fazer. (...) Deus me terá em Sua Glória e sei que ele agora está rindo”. Deus, assim como o leitor, também acaba seduzido (atente para o trocadilho: “Deus me terá”) pela arte erótica/narrativa de João Ubaldo Ribeiro, que recupera com esse livro a sua velha forma.

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